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04 fevereiro, 2006

DIAMANTE INTERNO: O DESPERTAR DA CONSCIÊNCIA

DIAMANTE INTERNO: O DESPERTAR DA CONSCIÊNCIA

Toda a Humanidade em sua maioria e no seu mais profundo momento íntimo busca o despertar da consciência humana. Nos seus momentos de silêncio e reflexão, por mais alienada que seja, a sociedade certamente busca o resgate de algo que se perdeu no nosso passado histórico. Há milhões e milhões de anos, seres humanos buscam dignidade de vida enfrentando poderes, não só ocultos, mas poderes culturais e sócio-econômicos. Não quero entrar na discussão do porquê de tudo isso, porque entraria em filosofias, correntes, divergências, processos históricos, etc. Quero apenas enfatizar que o ser humano é um eterno buscador. Ele busca a alegria, a felicidade, a paz, melhores condições de vida para si e seus semelhantes.

A maneira que a humanidade encontrou para resistir às adversidades da vida e encontrar as respostas para aquilo que perdeu ou esqueceu é através da religiosidade, da espiritualidade, da concentração e dos estudos, na busca do conhecimento contra a ignorância imposta, subliminarmente forjada pelo Poder. Nesse sentido, aquele que procura, depara-se com o fenômeno do despertar da consciência.

"Séculos e séculos se passaram e centenas de representações religiosas ou espirituais foram criadas de acordo com a cultura e cosmovisão de cada povo, de cada etnia, principalmente de acordo com os padrões sócio-econômicos da cada um. Imagens, cerimônias, mitologias, liturgias, símbolos, tambores, chocalhos e atabaques são conseqüências das criações, não fazem mal a ninguém. São expressões da arte na religiosidade e na espiritualidade. O que faz mal é a pretensão de querer ser melhor do que os outros ou ser o dono da razão, quando existe uma grande diversidade de pensamentos entre a humanidade", escrevi num texto sobre "intolerância interseccional", publicado na Agência de Imprensa Indígena (AIPIN), (México, 2005).

Lamentavelmente, algumas correntes religiosas associadas ao grande capital, no passado, buscaram a hegemonia, desconsiderando, a partir de seus próprios juízos de valor morais, éticos e filosóficos, a fé dos povos que subjugavam. Cada vez que povos ou etnias sentiam-se rejeitados, subjugados, racializados, mais crescia a sua fé e suas crenças através da liderança do pajé ou ialorixá/ babalorixá, no caso dos povos indígenas das Américas e da África respectivamente - povos resistentes que praticavam a conexão do homem com o sagrado. Cada vez mais fortaleciam suas culturas, tradições e cosmovisão. Assim foi a história dos povos aborígines, dos povos indígenas, dos povos nativos dos grandes continentes até hoje. Por isso a resistência indígena é forte no planeta Terra. Há de se ouvir a voz indígena!

O capital dividiu povos ricos e pobres e fracionou as mentalidades. Baseados em culturas particulares surgiram centenas de líderes religiosos e espirituais, como, por exemplo, Maomé, Buda, Jesus Cristo, Oxalá e Krishna, todos pregando a mesma filosofia através dos tempos. Todos são atrelados à Poderosa Força Cósmica, ao Criador, ao Grande Espírito e ao Cristo Cósmico, ao Buda Cósmico ou a Oxalá, dependendo de cada cultura ou vertente. Tudo isto representa uma grande riqueza espiritual! É preciso enxergar a unidade na diversidade.

O xamanismo é um termo que designa a filosofia de estar em viagem entre mundos mentais, físicos, espirituais, psicológicos. Não é uma religião. É uma forma de estar na vida e no Planeta. Povos contestadores das religiões impostas adaptaram-se a esse estar no mundo, ao longo do tempo. Antigos povos já praticavam essa filosofia. Na modernidade, seres conscientes adquiriram o sentimento de amor pela Mãe-Terra e entenderam que era necessária a prática da conservação do Planeta Terra - daí todo "ser xamânico" ser holístico. Aqueles que verdadeiramente estiverem dentro desses padrões, são Visionários. Os que mentem ou comercializam a fé, não permanecerão.

Povos indígenas, afeiçoados à sua cultura, tradições, educação, saúde e espiritualidades diferenciadas fortaleceram sua cosmovisão diante do mundo e mostraram sua defesa publicamente, através dos movimentos organizados, nos planos nacional e internacional. A exemplo disso, cita-se a defesa da cultura através da legislação específica que foi criada dentro das Nações Unidas, com o Grupo de Trabalho sobre Povos Indígenas, que trabalhou vinte anos para produzir a Declaração Universal dos Povos Indígenas.

No Brasil, centenas de organizações indígenas buscam o mesmo objetivo: a defesa do conhecimento ancestral, do patrimônio cultural.

Cito aqui um pequeno texto de uma carta elaborada por um conjunto de pajés em 2004:

(...)"Tendo em consideração a necessária defesa do direito de nossos povos diante dos processos de apropriação destes saberes e visões próprias, herdadas de nossos ancestrais, insiste na afirmação de princípios fundamentais à dignidade dos povos, pressupondo o respeito à livre e esclarecida decisão quanto ao acesso e uso do acervo de conhecimentos que envolvem a sensível e frágil Teia da Vida, que em nossas culturas ainda se constitui no verdadeiro patrimônio da humanidade, não podendo estar disponível para os usos e acessos previstos nas discussões entre governos (OMC, OMPI) e representantes das empresas no amplo processo de negociação das partes acerca dos recursos genéticos, conhecimentos tradicionais e patrimônios culturais dos povos indígenas".O patrimônio dos povos indígenas não está disponível para usos e acessos.

O povo brasileiro é um povo muito místico. É intuitivo, importa-se com os sonhos. É religioso. Traz no seu interior a herança dos povos indígenas, povos negros, povos amarelos, povos brancos - como se vê na nossa diversidade de religiões e espiritualidades.

O bonito é o respeito entre crenças, fés e doutrinas. O xamanismo e a pajelança são vertentes diferentes, por isso xamã é xamã e pajé é pajé, assim como o padre é padre e o pastor ou pai ou mãe de santo são eles mesmos. Cada um tem seu tempo de trabalho e formação próprios e específicos. O intercâmbio é maravilhoso e o ecumenismo deveria ser mais ativo no Brasil!

Nas tradições indígenas, o pajé é a expressão máxima representada, em forma humana, da espiritualidade e da cura. Seu dom é nato, porque é passado de geração para a geração. Nenhum pajé faz curso para ser pajé, ele adquire conhecimentos através da ancestralidade tribal, e desde a sua infância, ao ver seus avós e bisavós praticarem curas e rezas pelo bem da comunidade. O pajé é um ser totalmente desprovido de valores materiais. É um visionário nato. Seu maior bem é o dom ofertado com honras pelo Criador. Ele está sempre em conexão com o mundo atemporal, com atitudes concentradas e observadoras. O pajé é um sábio e está sempre disponível para atender o seu povo, doando sua cura de forma "solidária". Não há uma relação capitalista entre pajé e doente, entre o pajé e a comunidade. O pajé e sua pajelança representam, na realidade, a maior expressão nata dos conhecimentos tradicionais, a propriedade intelectual indígena, mesmo que ele não tenha conhecimentos científicos para compreender a defesa dos seus direitos indígenas. Por outro lado, cada pajé pertence a uma etnia específica indígena provida de valores, costumes, crenças específicas. Um pajé de uma certa etnia pode agir de forma distinta de um pajé de outra etnia. O pajé pode ter, se quiser, uma relação capitalista com indivíduos urbanos, pois o seu ofício equivale ao de um médico entre nós.

Nas tradições africanas, é o ialorixá ou babalorixá que representa estes conhecimentos. É ele quem mantém a resistência viva. O pajé, o xamã, os ialorixás, os babalorixás, os padres e os sacerdotes despertam a nossa consciência, nos fazem lembrar que somos todos iguais.

O que nós humanos estamos precisando lembrar, no fundo de nossos corações, no fundo de nossos neurônios adormecidos e no fundo de nossa alma primeira, é deste bem precioso, um diamante que perdemos ou esquecemos, um passaporte ético para a verdadeira Nova Era. Esse é o esforço que temos que fazer para resgatar essa memória ancestral perdida através de milhões e milhões de anos - somente assim o sofrimento e as diferenças não existirão mais entre nós, seres terráqueos.

Para isso, é necessário que os espíritos da Inteligência, da Humildade, da Fraternidade, da Fé, do Amor Universal, da Justiça, da Força e da Paz - atrelados à grande Mente Ancestral (O grande espírito, o Criador) que está dentro de nós - sejam trabalhados em todos os corações através da observação, da concentração, do estudo e da aplicação desses bens divinos à Humanidade.

Esses espíritos em cada cultura podem ser representados de formas diferentes como, por exemplo: na forma entes da natureza (aves, peixes, mamíferos); terra, água, ar, fogo; pontos cardeais (norte, sul, leste, oeste); planetas e manifestações da natureza, como a lua, o sol, as estrelas, o trovão, os raios, as tempestades, os maremotos, os rios, as cascatas, as cachoeiras, os mares, as chuvas; os mensageiros de Deus, os anjos, os arcanjos e os santos. Enfim, uma gama elementos da própria natureza. O importante é a essência, não a forma! Respeitemos a cultura de cada povo e suas representações simbólicas, porque tudo é muito lindo e abençoado é aquele que compreende essa riqueza de expressão e sentimentos.

Texto de Eliane Potiguara
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2 comentários:

feiticeiro thor disse...

'Bençãos da Grande Mãe Eliane...
'É um Grande prazer aprender com vce e ler teus textos,a sabedoria da Mãe Terra pulsa nas tuas palavras...
'É confortante estar lendo suas palavras que vibram energia de vida,de terra e de seus filhos...
'Que o Grande Falcão vermelho,guie vce em direção do Grande Sol,e aqueça teu espírito de bençãos de luz...
'Que teus sonhos,e esperanças estejam sempre bem guardados em teu coração,para que possas,viver em harmonia com teu espírito...
'É uma Grande Honra estar aqui,próximo de teu coração Eliane...
'Bençãos dos Antigos...
'Abraço de Luz do Grande Sol...
'feiticeiro thor < >< * M
'
'

Angelo Yrypa disse...

Adorei tudo que li e o que estas leituras me fizeram pensar.
Eliane, mais uma vez parabens.
Você me perece uma fiel e autêntica representante dos nossos povos indígenas, de todas as Américas, povos massacrados, assassinados, mas não vencidos.
Povos que lutaram e lutam ainda para mostrar seu valor.
Veja Eliane, 500 anos de ferro e fogo não nos conseguiu dobrar.
Isso significa que não nos dobraremos nunca.
O povo nativo (noa sentido de aprimeiro e verdadeiramente dono) desta terra, que já não é mais Pindorama, é um povo forte e invencível.
Eliane, sou solidário com sua luta e a luta dos povos indígenas do Brasil e das Américas.
Penso que as Lutas dos Povos indígenas, aquí e em todos os cantos deste Planete, é a luta pela vida e pela harmonia entre os homens/mulheres e entre os povos.
Estou com vocês.

Dildo Brasil
Em 02 de Agosto de 2006 (às 21h20).